Algo a Comemorar na Páscoa?

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Uma antiga, polêmica e requentada opinião sobre a Páscoa

Algo a Comemorar na Páscoa?

Por Lucas Sampaio

Mais um ano de celebrações da Páscoa, com o feriado prolongado da Semana Santa a nos inspirar diversas reflexões.

A primeira delas é que o Brasil está longe de ser um país laico, pois embora sua Constituição assim estabeleça formalmente, são preponderantes os feriados em datas de celebrações religiosas, como do dia de sua padroeira, Corpus Christi, Natal e Páscoa, além dos feriados regionais.

Não sendo o Espiritismo uma religião, como ensina Allan Kardec, aos seus adeptos é possível e natural a releitura dos mitos religiosos sem as características místicas inerentes a esses sistemas, a fim de compreender de forma mais isenta os fatos históricos, através da simples análise dos livros bíblicos e também pelos instrumentos que a historiografia moderna oferece.

No que toca à Páscoa, vale lembrar que esta marca o fim do Êxodo através do qual os judeus libertaram-se da escravidão no Egito e seguiram para as terras que o deus Javé lhes prometeu – embora elas já tivessem outros donos.

O que se omite é que esse percurso foi um dos episódios mais tristes registrados na História Antiga, pois o deus denominado “Senhor dos Exércitos” ordenava àquele povo embrutecido que passasse a fio de espada os habitantes das cidades e tudo que nelas existisse (Deuteronômio 13:15). E pouparemos o leitor dos crimes hediondos narrados no hexateuco, bem diferentes da mensagem que Jesus mais tarde ensinaria (“Amai os vossos inimigos”). Aos interessados, recomendamos “A Bíblia e Seus Absurdos”, de Carlos Bernardo Loureiro.

Cerca de 1.400 anos depois, Jesus de Nazaré adentrava uma Jerusalém repleta no período em que seu povo festejava a Páscoa. Ocorre que seu pensamento libertador incomodava profundamente o poder político e religioso dos sacerdotes de seu tempo (assim como continua a incomodar) e assim Jesus seria condenado e executado de forma injusta e bárbara, como confirmou a História.

Infelizmente, em pleno século XXI ainda se acredita que Jesus era o próprio Deus que foi ao madeiro por sua própria vontade, em sacrifício pela Humanidade, num ato que equivaleria a um suicídio, sem qualquer significado moral, impensável para um Espírito superior. De fato, se assim não fosse, Jesus não pediria a Deus no Getsêmane que afastasse o cálice do sofrimento (Mateus 26:39), nem diria “Eu não vim de moto próprio, mas foi Deus que me enviou” (João 8:42). Enfim, toda sua doutrina moral era incompatível com tal criação teológica.

Ou seja, diante desses dados, não convém atribuir à Páscoa ou à crucificação de Jesus qualquer salvação, libertação dos pecados ou transformações ascéticas através de posturas místicas ou litúrgicas, como proibição de carne nas refeições, como muita gente continua a acreditar 160 anos após o lançamento do Livro dos Espíritos e sua revolução racionalista.

Jesus era um homem animado por um Espírito superior e o crucifixo que o representa preso e executado, além de uma exaltação ao sofrimento, além de ingratidão, é o símbolo oposto à mensagem libertária que ele transmitiu: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:32).

Trata-se, portanto, de um fato histórico a se lamentar, ressalva feita aos luminosos ensinamentos de Jesus e ao seu retorno em aparição tangível (não em ressurreição, biologicamente inviável) após sua desencarnação, quando ratifica, como sempre por um admirável fenômeno espiritual, a imortalidade que sempre ensinara.

Em verdade, o Espírito, imortal, possui seus próprios mecanismos para a realização de suas imanências. Estes se processam gradualmente através da reencarnação, com o Ser conhecendo a Lei Natural e fazendo uso responsável da liberdade que conquista, sem soluções mágicas ou miraculosas para aplacar os sofrimentos humanos nessa longa caminhada.

A isso se deve a enorme importância desta mensagem progressista e de esperança dirigida ao Espírito humano em todas as épocas e sobretudo em épocas conturbadas como a nossa: “Vós sois deuses” e “fareis coisas ainda maiores que as que eu faço” (João, 10:34 e 14:12). E para tanto, é bem melhor lembrar do Mestre vivo!

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